O Conto Vencedor 2° Concurso Noites Vitorianas

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Autor: Luciano carvalho

O Diário

07 de Abril de 1824

Que dia maravilhoso, caro diário! Esse foi meu primeiro aniversário como esposa de meu amado. E não poderia ter sido melhor. Deixamos as paredes frias desse castelo (que meu marido tanto ama, devo dizer, a contragosto) e fomos para seu solar, em Rouen. Partimos logo cedo, pois queríamos passear às margens do Sena. Passear por Rouen me dá uma sensação estranha. Sinto como se o espírito de Joana D´Arc ainda pairasse por aquelas ruas. Passamos pela praça central, onde ela fora queimada viva. Não pude conter uma lágrima de meus olhos. Ah, diário! Se você fosse uma pessoa e pudesse ver como meu esposo foi tocado por aquilo. Me tomou nos braços e me deu um carinhoso beijo na testa. Senti tanto carinho e conforto, me senti tão segura, diário!

Esses têm sido os seis meses mais felizes da minha vida. Uma grande festa será feita hoje, em nosso Castelo. Ainda acho aquelas paredes muito frias. E nunca encontro as aias quando preciso! Mas dessas coisas uma mulher respeitosa não se queixa com o marido, muito menos com um esposo como o meu, tão cuidadoso, protetor, amável. Ele é um homem de negócios e de tradição. E nesses tempos em que os burgueses enchem as ruas com seus cantos e extravagâncias, meu esposo defende mais do que nunca as raízes do passado nobre. Ele nunca se livraria desse castelo. Mas são apenas seis meses. Ei de me acostumar com este lugar. E ei de me acostumar a encontrar as aias!

Mas agora vou me aprontar para a festa. Devo estar apresentável para meu esposo…

07 de Abril de 1824 (noite)

Meu Deus! Por que permites, meu Senhor, que coisas como essas aconteçam! Maldita romani. Cigana amaldiçoada. Minha paciência tem limites, embora meu marido tenha me feito conter os ânimos. Como se eu precisasse que uma cigana magiar me lembrasse que há sangue nômade nas veias, junto com o sangue nobre francês. Por que ela veio aqui? Só para me humilhar diante de meu marido? Ele é um nobre, filho de nobres, defensor da tradição da família. E eu? Uma francesinha com sangue meio romani. E aquelas palavras, o que ela quis dizer? Meu Deus! Meu marido está se trocando, e logo virá para o quarto. Escreverei mais quando me acalmar… maldita velha.
***

Meu amado está deitado. E eu logo me juntarei a ele. Ele sabe quando algo me perturba, e sabe como ninguém como me acalmar. Ele sempre gostou dos meus cabelos. “Cabelos romani são seu charme especial, mademoiselle”, costuma falar enquanto me penteia. Isso é um luxo único, caro diário. Que esposa em toda a França possui um marido que penteia seu cabelo antes de deitar? Bem, eu brinco com ele dizendo que ele só faz isso porque se depender de eu encontrar alguma aia para fazê-lo, passaríamos a noite inteira acordados. E ele sorri com aquele jeito jovem que tem e com aqueles olhos vivos que tanto me fascinam. Não há como manter-me irritada na presença dele. Mas, embora ele elogie os traços ciganos em minha face e corpo, eu não gosto. O sangue cigano que corre em minhas veias é uma mancha. É verdade que nunca fui criada entre os nômades. Desde pequena fui criada entre meus avôs paternos, que me deram toda a boa e tradicional educação francesa. Mas todos sabem que, no fundo, sou o resultado da má conduta de meu pai, que se apaixonou por aquela bruxa que lia mãos. Sabe-se lá o que ela leu nas mãos dele, ou que beberagem lhe deu pra tomar, mas ele caiu nas mãos dela. Mas, quando nasci, acho que os ciganos não me quiseram, e meu pai, para evitar um escândalo, me mandou para a Alta Normandia, junto de seus pais, meus avós.

No entanto, cresci sabendo de minha origem cigana. E, apesar de nunca ter gostado dela, essa origem diferente atraiu os olhares e o amor de meu esposo. Meus longos e negros cabelos o encantam, além dos meus olhos, “pérolas negras”, nas palavras dele. Por isso ele faz questão de me acariciar e pentear meus cabelos antes de dormirmos. Ele não considera uma ofensa. Talvez até seja, na corte social em que vivemos, já que isso é serviço das aias, mas esse é um daqueles “segredos de casal”, como se diz em Paris. É uma daquelas coisas que só o casal entende, é sua intimidade mais profunda.

Mas estou preocupada. Por que, em nome de Deus, aquela romani veio aqui, na festa de meu aniversário, só para me dizer aquelas coisas? A festa ia alta e muito animada, quando senti um calafrio na nuca ao ver aquela figura, com trajes coloridos e perfume exótico, entrando pelo salão de festas. Meu esposo vinha atrás. Ela nem perguntou por mim. Parecia que já me conhecia, pois veio direto em minha direção. Sem que eu pudesse esboçar reação, segurou em meu pulso e disse aquelas palavras que nunca vou esquecer:

“Filha de uma romani com um gadjon, você se casou com um nobre. Ainda que nobre, é um gadjon, e isso não vai mudar. Seu destino é triste, filha. Na loucura e na solidão você morrerá, em seu quarto frio você clamará pela sagrada libertação de seu marido, mas ele de ti fugirá. Somente em tua espectral formosura, um dia se libertará, para o descanso eterno encontrar. Mas aquele que lhe tocar, que em sua intimidade velará, teu esposo não será. Mas será atrás de teus papéis sagrados, que teu esposo desesperado enviará teu libertador, sem saber o que faz. Mas e tu, de tua angústia o libertará? Ou eternamente também o envolverá?”

O que ela quis dizer com esse enigma? Ou seria maldição? Não sei dizer. Na hora, meu esposo ficou tão atônito quanto eu pelas palavras dela. Eu, furiosa por ter sido tão vergonhosamente exposta por aquela cigana, no meio de todos os convidados, olhei-a com tanto ódio, tanta fúria, que só não expulsei-a aos berros por causa do olhar repreensivo de meu marido. Mas ainda que com palavras de baixo tom, coloquei todo meu ódio, mandando-a embora. Minha raiva, diário, era tão intensa que não reparei as lágrimas pulsando nos olhos da velha. Sua mão fez um pequeno gesto, como se quisesse tocar minha face mas, recolhendo-a hesitante, ela se limitou a dizer, com voz embargada: “Que bibaxt prejial the nani yovavel”. E, com ar de dignidade, partiu do salão. Meu esposo, como sempre, soube lidar com a situação, alegando que a festa deveria continuar pois, no aniversário de sua esposa, não havia lugar para tristeza. Mas, para mim, o tempo parou naquele momento. Aquelas palavras ainda ecoam em meu ser. Eu sei o que aquela frase significa. “Que azares, doença e má sorte vão embora, sem voltarem mais” – Não entendo! Por que ela me amaldiçoaria para, depois, me lançar uma bênção?

Quando os demais convidados partiram, perguntei a meu esposo o porquê de tê-la deixado entrar. Ele então disse que só o fez porque ela lhe trouxe uma carta de meus avós, lacrada e timbrada, confirmando que essa era minha avó materna. A carta também dizia que, em meus primeiros anos, minha avó cigana me visitava e me ensinava muitas coisas, inclusive sobre sua língua. Um dia, sua caravana partiu, e ela nunca mais dera notícias… até essa noite.

Mas por que ela veio hoje? Por que com o consentimento de meus avós? Será que suas palavras são um aviso, e não uma maldição? Ah, diário, vou me deitar. Estou cansada e não entendo essas coisas.

07 de julho de 1824

Por que tanto sofrimento? Que maldição é essa que toma minha alma? Já fazem três meses que aquele infortúnio em meu aniversário ocorreu. E, desde então, tenho sido tomada de uma melancolia tão profunda. Chego a ficar horas olhando pela vidraça dessa janela, o belo jardim lá fora, tão cuidado pelo jardineiro. Mas as flores cheiram a morte. O jardim parece um mosaico pútrido. Uma tristeza está me invadindo, e meu esposo sente isso. Eu não lhe disse nada, mas às vezes, em meio ao jardim, ou próximo às árvores do bosque a leste do castelo, vejo estranho vultos, ondulando sobre o relevo natural. Não parecem serem produzidos por nenhuma projeção solar, mas logo se desvanecem. No princípio não pensei ser nada, tolices de uma menina mimada. Mas está piorando, eu acho.

17 de Agosto

Diário, estou doente. Agora tenho certeza disso. No começo, pensei que fosse apenas cansaço, ou que era uma pessoa impressionável, e que as palavras da romani tinham influenciado minha imaginação. Mas não é isso. Hoje foi horrível. Horrível. Estava no jardim com meu marido. Acordei mais animada e, com o domingo ensolarado, fomos à igreja e, ao voltar, ficamos um pouco no jardim. Estava gostoso lá. Deitei no colo de meu marido, e ele começou a pentear meus cabelos. Estava quase adormecendo, quando vi novamente aquele vulto próximo à cerca viva, na parte anterior ao jardim. Ela se movia, quase não era um vulto. Eu então firmei minhas vistas e… meu Deus. Que horror. Mal consigo falar sobre aquilo. Era uma pessoa! O vulto deixou transparecer uma pessoa morta, com buracos no lugar de olhos, a boca soltando sangue… ela me viu, olhou em minha direção e caminhou! Eu berrei, entrei em pânico, me debatia e me agarrava a meu marido. Foi horrível….

10 de Setembro

Estou horrível. Não me alimento há dias. Estou magra. Meu esposo chamou o médico. Ele me dá remédios e me manda ficar em repouso no quarto. Já fazem dias que não posso sair daqui. Meu amor, o homem da minha vida, me olha com pena, com pena! Eu os vejo por toda parte. À noite me dá pânico. Quando as horas se aproximam, quando a luz natural do sol começa a minguar, eu começo a tremer. Ele não entende. Desde aquela noite, quando um vulto entrou no quarto. Como eu tremia. Ela me tocou, tão fria, sua mão de velha, gélida. Eu não queria olhar, mas o toque me fez abrir os olhos. Era uma aparição, uma velha com a carne rugosa, com a boca sangrando… não pude me conter. Me debatia enquanto sentia o misto de bílis e sangue cair com consistência em minha face. Desde então, meu esposo não dorme comigo. Ele me abandonou… meu amor.

23 de setembro

Ele viu! Eu sei que meu marido também viu as aparições. Foi ainda há pouco. Ele veio ao quarto, me trouxe leite. Estava mais terno do que o costume nesse dias. Seu toque mostrava o mesmo carinho de antes da cigana aparecer. Eu sorri para ele e pedi que penteasse meus cabelos mais uma vez. Estou muito magra. Creio que morreria ali, com ele me acariciando. É tudo o que queria. Ele me olhou com os olhos cheios de lágrimas. Com carinho ele me sentou de frente ao espelho. Minha expressão era cadavérica, por falta da alimentação. Não pude olhar muito tempo no espelho. Lhe pedi para virar a cadeira, assim ele me veria de perfil no espelho e eu não me veria. Ele sorriu complacentemente e concordou. Foi quando ele começou a me pentear. Algo aconteceu. O pente passando sobre meus cabelos, algo segurando o pente. O que será? Nunca vou saber. Ele gritou, se afastou com nojo e pavor. Meu amor. O que aconteceu? Eu o chamei. Eu o chamei. Ele se foi. Não voltou. Não voltou.

Eu gritei. Gritei! Ele não veio. Meu amor, me liberte! Me liberte… penteie meus cabelos mais uma vez, por favor…

(sem data – escrito em vermelho)

Eu ainda estou aqui. Sozinha… tão frio… me liberte…

Agora entendo as palavras da romani. Mande seu amigo, como ela falou, por favor. Me liberte dessa prisão tão vazia, tão cheia, tão escura. Eu te buscarei. Te amarei para sempre…

Ele chegou… enfim, a espera termina, meu amor.